Meu Negócio É Arte: o corre das minas no mercado cultural
por Trem Pra FazerLígia Morase e Zi Reis relatam como é a vida das mulheres no universo artístico
A escritora Carolina Maria de Jesus saiu da favela do Canindé, em São Paulo, para se tornar uma das autoras brasileiras mais conhecidas do mundo. O livro “Quarto de Despejo”, lançado nos anos 1960, foi traduzido para 13 idiomas e distribuído em mais de 40 países. Filha caçula da autora, Vera Eunice lembra do momento em que a mãe segurou pela primeira vez o exemplar da obra: “O olho dela brilhava”. Essa é a abertura da jornada para o segundo episódio da série “Meu Negócio É Arte”.
Mais do que reconhecimento, a literatura mudou a vida da catadora de recicláveis e mãe solo. Décadas depois, a trajetória de Carolina continua inspirando mulheres que fazem da cultura uma forma de sobrevivência, resistência e empreendedorismo. É o caso da artista e produtora cultural Lígia Moraes, moradora de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte.
Professora da educação infantil há mais de 20 anos, Lígia divide a rotina entre a sala de aula e os projetos culturais. Múltipla, ela atua com performance, música, contorcionismo, produção e artes visuais. Apesar da forte ligação com a arte desde a infância, ela escolheu cursar Pedagogia em busca de estabilidade financeira. “Na minha geração, viver só de arte parecia impossível para quem vinha da periferia”, afirma. Confira o segundo episódio no Spotify.
Segundo dados do IBGE, o setor cultural brasileiro reúne cerca de 5,9 milhões de trabalhadores e movimenta aproximadamente 3% do Produto Interno Bruto (PIB) do país. Mesmo assim, a informalidade ainda marca grande parte da economia criativa.
Além da instabilidade financeira, mulheres que atuam na cultura enfrentam desafios ligados ao machismo e à maternidade. Lígia relata que já teve trabalhos invisibilizados enquanto homens recebiam os créditos pelas produções que ela liderava. Para enfrentar esse cenário, artistas têm criado redes de apoio e fortalecimento feminino. Em Contagem, o coletivo As Três Graças, formado por Lígia, Fabi Santana e Maria Clara, realiza projetos voltados exclusivamente para mulheres.
Outra artista que transforma o cotidiano em arte é Zi Reis. Grafiteira, muralista e pesquisadora, ela usa o próprio trabalho para discutir maternidade, cuidado e desigualdade de gênero. No mural “Território do Cuidado”, realizado em Belo Horizonte, Zi retrata uma mãe segurando o filho no colo como símbolo de acolhimento e resistência. “Os obstáculos serão enormes, mas a gente precisa acreditar no nosso fazer”, diz a artista.
Entre tintas, livros, performances e projetos coletivos, mulheres como Lígia e Zi seguem abrindo caminhos para que outras artistas consigam viver da própria arte sem apagar suas histórias, identidades e maternidades. O episódio também pode ser conferido no YouTube.
“Meu Negócio É Arte” é a terceira temporada do Trem Pra Fazer Podcast. Os sete episódios inéditos foram contemplados na Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à cultura, a PNAB Contagem, em 2024. A primeira temporada do podcast virou o livro “Contagem da Abóbora À Indústria Cultural”. Clique aqui e saiba mais.