Meu Negócio É Arte: cultura é política queira você ou não
por Trem Pra FazerCultura não é privilégio nem gasto supérfluo. É política pública, cidadania e desenvolvimento.
A cultura como direito, política pública e instrumento de transformação social é o tema central do quinto episódio da série “Meu Negócio é Arte”, do Trem Pra Fazer Podcast. A produção reúne artistas, gestores culturais e produtores para discutir o impacto das políticas públicas na formação de carreiras, na geração de emprego e no fortalecimento da economia criativa.
A reflexão parte de uma declaração de Wagner Moura, que atribui sua trajetória artística às leis de incentivo que possibilitaram a formação de uma geração de atores baianos nos anos 1990. A fala reforça uma das principais ideias do episódio: grandes obras culturais não surgem isoladamente, mas são resultado de investimentos públicos, planejamento e participação social.
Ao longo da reportagem, artistas de Contagem relatam como a ausência de políticas culturais dificultou o desenvolvimento do setor nas décadas passadas. O ator Ilvio Amaral lembra que, no fim dos anos 1990, faltavam recursos básicos para a montagem de espetáculos. Já o cantor e ator Marcelo Veronez conta que precisou deixar a cidade para encontrar oportunidades profissionais em Belo Horizonte, movimento vivido por diversos artistas da região.
TRANSFORMAÇÃO
O cenário começou a mudar com a criação de mecanismos de fomento, como o Fundo Municipal de Incentivo à Cultura, a Lei Paulo Gustavo e a Política Nacional Aldir Blanc. Segundo dados da Secretaria Municipal de Cultura, cerca de R$ 26 milhões foram investidos em aproximadamente 1.600 projetos culturais entre 2021 e 2025. Os recursos contribuíram para a realização de espetáculos, festivais, formações, pesquisas e ações de preservação da memória cultural.
Os entrevistados também destacam que o investimento em cultura produz impactos econômicos que vão muito além dos artistas. Produtores, técnicos de som, iluminadores, designers, contadores, comunicadores e prestadores de serviços integram uma cadeia produtiva movimentada pelos projetos culturais. A produtora cultural Lígia Morase ressalta que eventos financiados por leis de incentivo também beneficiam comerciantes locais, empreendedores da economia solidária e trabalhadores de diferentes áreas.
Outro tema abordado é a necessidade de ampliar o acesso às políticas públicas. O episódio apresenta exemplos de ações afirmativas voltadas para mulheres, pessoas negras, comunidades periféricas, população LGBTQIAPN+ e pessoas com deficiência. Também são discutidas estratégias para contemplar agentes culturais com dificuldades de acesso aos processos burocráticos, como mestres da cultura popular e pessoas idosas.
NEM TUDO SÃO FLORES
Apesar dos avanços, os participantes defendem que os mecanismos de incentivo ainda precisam ser aperfeiçoados. A produtora Deisy Castro, do Instituto Cultural CircoLar, argumenta que as leis de fomento são fundamentais, mas insuficientes para garantir a sustentabilidade das organizações culturais. Para ela, empresas e instituições privadas também devem investir na produção artística local.
O episódio reforça ainda que cultura é um direito previsto na Constituição e que as políticas culturais representam conquistas construídas por décadas de mobilização social. Mais do que financiar projetos, esses instrumentos buscam reduzir desigualdades, democratizar oportunidades e garantir que diferentes grupos possam produzir, acessar e preservar suas expressões culturais. A mensagem é clara: cultura não é privilégio nem gasto supérfluo. É política pública, cidadania e desenvolvimento.
Confira os outros episódios da série “Meu Negócio É Arte”. A temporada está 100% disponível no Spotify e no YouTube.